Página Inicial Os Escritores Lista de Crônicas + Recente + Antiga



Enterrado em pé

Martha Medeiros

Fala-se muito dela, a morte, inclusive a mesma está em destaque nas listas de best-sellers, através do mais recente lançamento de José Saramago. Estou quase acabando o livro, mas não estou muito impressionada com o surrealismo da história. Impressionada fico com algumas notícias que leio por aí e que competem de igual para igual com os arroubos dos ficcionistas.

Semanas atrás, soube que um deputado do Piauí, de 82 anos, pediu para ser enterrado em pé. Pediu e levou: o filho conseguiu realizar o sonho do pais e sepultou o caixão na posição vertical. Por que essa extravagância? Ora, porque o nobre deputado não era homem de se curvar diante de ninguém. Nunca havia feito isso em vida, nem mesmo na presença de governadores, a troco de que iria se curvar pra morte? Quis ser enterrado em pé e assim foi feito.

Tento descortinar o cérebro deste senhor que tanto se orgulhava de sua altivez. Não se curvar diante dos outros, vá lá, não chega a ser pecado mortal, apenas uma arroganciazinha típica de coronéis – e nós os temos por aqui também, não só no Nordeste. O que significa se curvar? Creio que é o mesmo que dar o braço a torcer, admitir uma derrota. Mas o nobre deputado não era homem desses deméritos. Viveu 82 anos tendo sempre razão. Durante 82 anos, jamais deve ter pedido desculpas para alguém. Por 82 anos, jamais sucumbiu a uma fraqueza. A não ser esta, seu último ato: teve medo de que a morte acabasse com sua reputação. De louco, o mundo tá cheio.

Uma das maiores demências do ser humano é querer ter controle sobre tudo, incluindo aí o controle sobre a percepção dos outros. Também já tive esta tendência, porém cedo joguei a toalha. Hoje me curvo, me rendo, me entrego, posso ser enterrada de cócoras, não estou nem aí. Me espanto com pessoas que se apegam a uma sensação de onipotência e cometem os atos mais estúpidos para não perderem a pose. Mas que pose? Com o avanço da informação, as máscaras estão caindo, todo mundo sabe quem é quem e do que são capazes. Os que ainda vivem de nariz empinado não passam de uns seres patéticos. Ninguém diz a verdade, e a mentira se consagra, são esses os poderosos? O verdadeiro poder está em não levar-se tão a sério, em ter consciência das próprias fragilidades e repartir o que fazemos de honesto, mas como convencer disso os alucinados por si mesmos? Nada mais justo do que sermos enterrados deitados, esparramados, descansando, finalmente, depois de termos nos divertido muito na vida, e não em posição de sentido, ainda trabalhando como guardião da própria eternidade.


Domingo, 20 de novembro de 2005.



Desenvolvido por Carlos Daniel de Lima Soares.